As lentes de contato coloridas podem ser uma ótima brincadeira para pacientes vaidosos, mas têm uma função ainda mais nobre.

Uma das maiores contribuições da oftalmologia para o segmento da moda foi a popularização das lentes de contato coloridas, que tornaram possível a realização do sonho de muita gente de mudar a cor de seus olhos. Porém, as chamadas lentes de contato cosméticas têm muitas outras aplicações, a maioria das quais clinicamente mais relevantes do que a troca da coloração da íris. Nessa reportagem, Cleusa Coral-Ghanem, Nicomedes Ferreira Filho e Eduardo Menezes, especialistas na matéria, compartilham as experiências que têm com lentes de contato coloridas:

Mil e uma utilidades
“A utilização da palavra ‘cosmética’ associada às lentes de contato gera ambiguidade por não prever a função essencialmente médica ou terapêutica desse recurso. Na verdade, o aspecto estético dessas lentes, quando aplicadas para alteração da cor da íris, é residual quando comparado à sua função reparadora”, diz Cleusa Coral-Ghanem, responsável pelo Departamento de Lente de Contato do Hospital de Olhos Sadalla Amin Ghanem, de Joinville, SC. Ela assinala, porém, que mesmo quando utilizada apenas para mudar a cor da íris, sem indicação clínica, a lente cosmética atende a uma necessidade emocional do indivíduo. “A lente pode ajudar a fortalecer a imagem e a identidade que precisa elaborar de si mesmo. Contribui assim para sua autoafirmação e aumento da autoestima”, afirma. Coral-Ghanem cita como exemplos da função reparadora das lentes de contato cosméticas os casos de recobrimento de cicatrizes, cataratas hipermaduras sem indicação cirúrgica, aniridia congênita ou traumática.

Para a médica, as lentes cosméticas podem ser classificadas em:

1) Gelatinosas (filtrantes ou translúcidas), que permitem a passagem da luz. A área pupilar pode ser da mesma cor da lente, transparente ou preta.
2) Pintadas (opacas e semi-opacas), que apresentam a íris pintada e, em alguns casos, também a pupila. Na lente opaca, a pintura é feita sobre um fundo escuro, que não deixa transparecer a cor original do olho, ao passo que a semi-opaca recebe somente a pintura colorida, possuindo certa transparência e a alteração da cor sofre a influência da cor original do olho.
3) Esclerais, também chamadas de córneo-esclerais, recobrem a córnea, o limbo e parte da esclera e podem ser pintadas ou transparentes.
4) Corneais, rígidas, de grande diâmetro (11 mm a 13 mm), recobrem toda a córnea.
5) Protéticas, que recobrem a córnea e a esclera, possuem espessura maior que as lentes esclerais e são utilizadas para cobrir desfigurações do globo ocular.

De acordo com a médica catarinense, as lentes gelatinosas filtrantes e pintadas são indicadas para reduzir a fotofobia em olhos hipersensíveis, reduzir a entrada de luz na presença do albinismo ocular, alterar a coloração dos olhos para efeito estético, proporcionar coloração parecida entre os dois olhos em casos de heterocromia de íris, simular presença da íris e da pupila em casos de aniridia congênita ou pós-trauma, recobrir cicatrizes e opacidades corneais, recobrir cicatrizes irianas ou corneais que possam ocasionar diplopia, cobrir cataratas hipermaduras que não tenham indicação de cirurgia e tratar a ambliopia, usando lente com pupila preta no caso de crianças que se recusam a usar oclusão convencional.

Segundo Coral-Ghanem, as lentes esclerais e as protéticas são indicadas para reconstruir um olho enoftálmico, recobrir uma córnea com leucoma e com superfície muito irregular – na qual a lente gelatinosa não consegue se fixar-, recobrir o olho quando há comprometimento escleral – além de corneano-, esconder e promover o alinhamento ocular nos casos de desvios com ângulo muito grande em um olho sem visão e sem indicação cirúrgica. “Atualmente, há uma grande variedade de colorações, pigmentos e modelos para produção das lentes gelatinosas pintadas. Dependendo da qualificação do fabricante, podem ser confeccionadas até por fotoimagem. Nesse caso, a coloração da lente é feita com base em foto do olho bom do paciente, ou de acordo com um modelo pré-escolhido”, explica a especialista.

Cleusa Coral-Ghanem considera que os pacientes que adaptam lentes para recobrir irregularidades ou opacidades corneais são, em geral, atentos e exigem orientações precisas antes e durante a adaptação para não verem frustradas suas expectativas quanto ao resultado final. Avisa também que os olhos que já sofreram algum trauma ou cirurgia prévia são, em geral, mais vermelhos e irritados e que, nesse caso, as lentes não esconderão esse problema. A médica ainda faz duas recomendações relativas ao uso das lentes escleral e corneal:

1) A lente escleral é indicada no comprometimento escleral ou conjuntival por trauma, no estafiloma ou quando outros tipos de lente não obtêm boa centralização sobre a córnea. A lente é muito durável e estável e aceita a incorporação de graus refrativos e prismáticos. Por outro lado, por ser geralmente fabricada em PMMA e apresentar espessura central entre 1,5 e 3 mm, não é gás-permeável, o que limita as horas de uso. Além disso, por ser uma lente maior, sua adaptação é mais difícil e, nos casos em que é pintada, oferece maior dificuldade na confecção para igualar a aparência da íris, pupila e vasos sanguíneos da região escleral.

2) A lente corneal é indicada para corrigir os astigmatismos irregulares e distorções corneais. É fabricada em PMMA e possui diâmetro entre 11 e 13 mm. Seu tamanho dificulta a oxigenação da córnea, se ela é transparente e, no caso de uma córnea já vascularizada, existe maior risco de anóxia e edema corneal, que deve ser controlado com cuidado pelo oftalmologista.

Nicomedes Ferreira Filho, professor adjunto da Faculdade de Medicina da UFMG – Hospital São Geraldo, outro especialista em lentes de contato cosméticas, prefere agrupar esses artefatos em quatro grupos:

1) Lentes de absorção de radiações com coloração uniforme.
2) Lentes coloridas com pupila negra para correção de leucomas e cicatrizes deformantes do segmento anterior, especialmente da córnea.
3) Lentes coloridas com pupila transparente, com finalidade de promover a mudança da cor dos olhos ou para criar pupila artificial estenopíeca em casos de aniridias e de albinismo.
4) Lentes transparentes com pupila negra para interrupção temporária da visão nos casos de ambliopia e diplopia temporária.

O oftalmologista mineiro afirma que as lentes de absorção de radiações com coloração uniforme ainda são pouco utilizadas. Alguns fabricantes de lentes gelatinosas já as produzem com a finalidade de filtrar as radiações ultravioletas (UV), mas sua indicação clínica ainda é residual e tanto médicos quanto usuários ainda preferem outros tipos de proteção contra os raios solares.

Indica, por outro lado, que os pacientes com albinismo ou aniridia congênita são algumas das pessoas que podem se beneficiar do uso das lentes estéticas: eles têm acuidade visual reduzida devido à fotofobia intensa, incômoda e limitante.

Nesses casos, o uso de lentes de contato de cor preta e com a pupila transparente, proporcionando a condição de uma pupila artificial, geralmente atenua a fotofobia. “Falando de aplicações clínicas das chamadas lentes de contato cosméticas, devemos considerar que as lentes transparentes com pupila negra são usadas como alternativa para suspensão provisória da visão de um dos olhos.

Nos casos de ambliopia em crianças é fundamental fazer a oclusão de um dos olhos. Algumas vezes, os pequenos pacientes se revoltam com o oclusor na lente dos óculos ou grudado na pele e a lente de contato se torna a alternativa para a realização da oclusão, uma vez que dificilmente será retirada pela criança. Há também casos de isquemia cerebral, por exemplo, nas quais aparecem sintomas de diplopia temporária, extremamente incomodativos, que são resolvidos com o tempo. Nesses casos, é necessário interromper a visão de um dos olhos por certo período, o que é obtido com o uso de lentes transparentes com pupila negra. Tão logo haja recuperação da isquemia, o tratamento é suspenso”, afirma Nicomedes Ferreira Filho.

“As lentes coloridas com pupila negra são usadas clinicamente em olhos cegos em pacientes que sofreram traumas importantes dos olhos ou doenças que provocaram a formação de cicatrizes que deformam sua fisionomia. Na maioria das vezes, são adolescentes que tiveram perfuração do olho por acidentes com objetos pontiagudos. Outras vezes, são consequências de acidentes automobilísticos ou queimaduras. A pessoa fica com um olho normal e outro com cor ‘brancacenta’, criando uma péssima aparência. Tais indivíduos ficam extremamente complexados, revoltados, introvertidos, não saem de casa, não têm vida social e não arrumam parceiros afetivos. Adaptada a lente cosmética, recupera-se a estética e a felicidade volta a fazer parte da vida da pessoa. É uma situação extremamente gratificante para o médico e para o paciente”, avalia Nicomedes.

Esse tipo de lente, no entanto, é mais usado para alterar a cor dos olhos com finalidade estética do que para transformar vidas. As lentes são particularmente populares entre meninas adolescentes, com visão normal sem correção, que querem ter olhos azuis ou verdes. De modo geral, tais lentes são adquiridas sem controle médico, o que pode acarretar problemas sérios para a saúde ocular dos usuários. “Já atendi casos de adolescentes que adquirem essas lentes em lojas e não recebem orientação adequada quanto ao tempo, uso e cuidados. Tive um caso de ceratite bilateral grave, felizmente revertida com o tratamento. A cliente tinha tomado emprestada a lente colorida da coleguinha e a usou por tempo muito prolongado”, conta Nicomedes Ferreira.

Para ele, o médico precisa avisar o usuário que a lente de contato é objeto de uso mais pessoal que pente ou escova de dente: “Os abusos que estão ocorrendo com esse tipo de lente de contato colorida vêm se tornando frequentes e, em geral, ocorrem por ignorância do cliente que em vez de ter sido orientado pelo médico, o foi por pessoas não qualificadas”.

Brincadeira perigosa
“Sempre houve tentativas de mudar a coloração genética dos olhos. As italianas de olhos claros os tornavam escuros ao gotejar nos olhos o extrato da planta nativa Beladona (atropina), que por seu efeito de dilatação da pupila fazia os olhos se tornarem escuros. O nome já o diz: Tropa Belladona (Belissima mulher). Hoje as lentes cosméticas mudam a cor dos olhos como em um passe de mágica”, conta Eduardo Menezes, oftalmologista fundador e da diretoria da Soblec.

Essas lentes surgiram em meados da década de 80, as primeiras recebiam coloração levemente azulada, com o objetivo de facilitar a colocação e a remoção, já que a cor facilitava a visualização do artefato. Alguns anos mais tarde apareceram as lentes cosméticas propriamente ditas, fabricadas com a intenção de mudar a coloração da íris. Algumas eram translúcidas e o efeito dependia da interação da cor da lente com a cor da íris. Outras eram opacas e permitiam que usuários com íris escuras pudessem aparentar olhos claros. Feitas de material hidrofílico, conhecido como lentes gelatinosas, essas lentes podem criar aspectos bizarros, como imitações dos olhos dos felinos, e demoníacos (perfeitos para um Dia das Bruxas). Elas ainda oferecem a opção de colocação de grau para corrigir erros refrativos, excetuando-se os casos de astigmatismo, cujos desenhos não estão disponíveis no Brasil.

Há alguns anos, o uso das lentes coloridas passou a fazer parte de certos rituais da moda. Acontece que seu uso estético, ligado a uma displicência juvenil, ajudou a difundir a idéia equivocada de que sua adaptação não demandava cuidados tal qual uma lente de contato “de verdade”. “A lente de contato é um corpo estranho que se coloca nos olhos e, portanto, somente com o prévio exame e controle com especialista se pode usar tal artifício segundo norma do Conselho Federal de Medicina (CFM). A curvatura da primeira e mais externa camada dos olhos, a córnea, aonde vai repousar a lente, associada a certas características anatômicas podem, por exemplo, contra-indicar essas lentes”, alerta Eduardo Menezes.

Outro problema é que muitas pessoas utilizam as lentes por tempo maior do que o recomendado. O resultado foi o significativo aumento de casos de ceratites e úlceras de córnea relacionados com essa moda. Nos Estados Unidos, onde cálculos conservadores falam de dois milhões de usuários desses artefatos, em outubro do ano passado a poderosa FDA emitiu um comunicado alertando os consumidores sobre os riscos do uso das lentes de contato decorativas sem acompanhamento especializado. No mesmo documento, solicitou às autoridades estaduais que colocassem alguns empecilhos à sua comercialização e às autoridades alfandegárias que controlassem de alguma forma sua importação.

No Brasil, não existem cálculos sobre o número de usuários (constantes ou esporádicos) dessas lentes com o propósito único de mudar a cor dos olhos. Vem sendo registrado, em consultórios e clínicas, um sensível aumento de casos de problemas de saúde ocular ligados a seu uso. “Na adaptação das lentes cosméticas é obrigatório o exame oftalmológico completo e rigoroso, como em qualquer outra adaptação: deve ser feita a avaliação das vantagens e desvantagens, indicações e contra-indicações, orientação precisa sobre manuseio, conservação e cuidado com as lentes de contato”, conclui Menezes.

Hoje a tecnologia garante lentes cosméticas feitas — em alguns casos até sob medida! — para todos os tipos de problema na córnea. Usadas em olhos cegos que sofreram traumas ou doenças que provocaram a formaçnao de cicatrizes e deformações, as LCs coloridas com pupila negra recuperam a estética. As imagens abaixo mostram sua eficácia a partir do clássico “antes e depois”. A visível diferença dá uma idéia do que esses pequenos artefatos podem fazer pela auto-estima dessas pessoas!

José Vital Monteiro

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