Alergias & lentes de contato
Melhorias nas soluções de manutenção das lentes e popularização das descartáveis reduziram o número de casos de alergias. Mas uma ainda assusta: a conjuntivite papilar gigante. Saiba como enfrentá-la
José Vital Monteiro
Já se tornou lugar-comum entre os oftalmologistas dizer que o uso de lentes de contato é um processo que começa quando o usuário coloca o artefato pela primeira vez sobre sua córnea e termina quando deixa de usá-lo. Durante todo esse tempo, o usuário precisa de acompanhamento e verificação especializada para detectar possíveis problemas e tratá-los da melhor forma possível.
Um dos problemas mais freqüentes ligados ao uso das lentes de contato é a alergia; isto é, a reação do olho contra algo que o está agredindo e que causa hipersensibilidade. Essa, por sua vez, traz conseqüências que vão de uma pequena intolerância ao uso da prótese até o surgimento de ptoses. Os agentes causadores da reação alérgica podem ser as próprias lentes, produtos de limpeza e conservantes, proteínas e resíduos que aderem à lente.
As melhorias nas soluções de manutenção das lentes, principalmente com a eliminação do thimerosal das soluções, bem como a popularização do uso de lentes descartáveis, reduziram significativamente o número de casos de vários tipos de alergias relacionadas ao uso de lentes de contato, fazendo com que um tipo, a conjuntivite papilar gigante, passasse a ter maior importância como motivo das visitas emergenciais ao oftalmologista.
Análises estatísticas em casos como esse são sempre discutíveis, mas a oftalmologista colaboradora do Serviço de Oftalmologia da Unicamp, Denise de Vuono Chinzon, cita que a literatura médica mostra que de 2% a 5% dos usuários de lentes de contato desenvolvem essa alergia em algum grau.
A comercialização inadequada (inclusive pela internet) de lentes – sem cuidado de transmissão das orientações completas sobre a utilização do produto –, o prolongamento do tempo de uso decidido unilateralmente pelo usuário por medida de economia e a disseminação das lentes cosméticas, erroneamente consideradas “não tão sérias” como as receitadas por razões clínicas e, portanto, merecedoras de cuidados menores, são fatores que estão levando ao aumento do número de casos de conjuntivite papilar gigante.
A doença e suas fases
De acordo com Denise Chinzon, na conjuntivite papilar gigante observa-se uma reação papilar do tarso superior, com formação de papilas, com ou sem ceratopatia, que levam o paciente a desenvolver diferentes graus de intolerância ao uso das lentes, alegando aumento de sua mobilidade, prurido, fotofobia, ardor, secreção branca, queda da acuidade visual e, nos casos mais graves, desenvolvimento de ptose.
Sua colega Cláudia de Assis Lima, assistente do Setor de Doenças Externas e Lentes de Contato da Unicamp, afirma que a manifestação dos primeiros sintomas da CPG podem ocorrer meses ou anos depois do início do uso das lentes de contato. “Durante a fase inicial, o exame da conjuntiva tarsal pode revelar-se normal ou apenas com discreta hiperemia. O diagnóstico deve ser feito baseado na história clínica do paciente e o médico precisa ter muita sensibilidade para ouvir. É necessário um exame detalhado da lente de contato utilizada na lâmpada de fenda para verificação da existência de depósitos protéicos envolvidos na etiopatogenia desse tipo de alergia ocular”, afirma.
No estágio seguinte, há um aumento da produção de muco, do desconforto, hiperemia e prurido. A visão fica borrada e o paciente não consegue mais usar as lentes de contato pelo tempo que sempre utilizou. Os sinais já são proeminentes e o exame do tarso superior revela uma congestão e espessamento moderado da conjuntiva tarsal. Aparecem as papilas, variáveis no tamanho, algumas maiores que 1/3 mm de diâmetro.
Cláudia Lima descreve a fase seguinte da conjuntivite papilar gigante marcada pelo aumento dos sinais e sintomas: a produção de muco é tal que a lente se torna opaca, desconfortável e extremamente móvel sobre a córnea.
A conjuntiva tarsal fica hiperemiada e edemaciada, com a trama vascular normal oculta; as papilas aumentam em número e tamanho.
Os usuários que atingem o último estágio da conjuntivite papilar gigante apresentam intolerância absoluta ao uso de lentes de contato. A produção de muco torna-se tão abundante que as pálpebras podem amanhecer grudadas; as papilas ficam maiores, com ápice achatado e com grande quantidade de muco entre elas.
Como agir diante da CPG
“O diagnóstico geralmente é feito a partir do estudo da história do paciente e dos sinais encontrados”, diz Denise Chinzon. “Não é possível isolar o agente que está provocando a hipersensibilidade sem uma investigação completa: saber quanto tempo o usuário está com a lente, como é feita a limpeza, qual conservante está sendo utilizado, como está o uso de enzimas para desproteinização, se existe a instilação de colírios, horário de utilização das lentes e freqüência da troca, no caso das descartáveis.”
A médica afirma que o tratamento depende da gravidade do processo.
Se a lente não estiver em boas condições e os sintomas adquiriram certa gravidade, ela deve ser substituída e/ou seu uso deve ser interrompido até a melhora dos sintomas. A substituição dos conservantes deve ser programada ou eles devem ser eliminados com a prescrição do uso de soro fisiológico e lentes descartáveis com trocas mais freqüentes. De acordo com Denise, o uso de estabilizadores de membrana e anti-histamínicos pode ser necessário nos casos em que há recorrência.
Cláudia Lima lembra que o objetivo do tratamento é reduzir os sintomas e sinais, evitar o dano do tecido e fazer com que o paciente volte a usar as lentes com conforto: “O tipo e a freqüência das medicações dependem da severidade do caso. No primeiro estágio, em que os pacientes apresentam alterações palpebrais mínimas e sintomas sensíveis, deve-se orientá-los a não coçar os olhos e a utilizar compressas frias. A lente precisa ser examinada na lâmpada de fenda e o médico deve suspender seu uso temporariamente ou trocá-la para reduzir a chance de recorrência”.
No caso das trocas programadas, a oftalmologista recomenda certificar-se de que ela esteja sendo feita no tempo correto. E ainda reforçar as orientações de cuidados de manutenção e receitar o uso de estabilizadores de membrana três a quatro vezes por dia durante dois a três meses. “Se os sintomas de prurido e hiperemia forem importantes, é recomendável receitar colírio anti-histamínico três vezes ao dia por duas a três semanas”, diz a especialista.
Nos estágios mais avançados, ela indica a suspensão do uso da lente e o uso de colírio corticóide seis vezes ao dia durante sete a dez dias para obter o alívio rápido dos sintomas, reduzindo em seguida seu uso até a suspensão em duas a três semanas. Após a suspensão do corticóide, o anti-histamínico e o estabilizador de membrana devem ser mantidos até a melhora dos sintomas. Nessa fase, o anti-histamínico precisa ser retirado.
“Durante o uso do corticóide, a pressão intra-ocular deve ser monitorada. Além disso, pode ser necessário instilar colírio anestésico e remover o muco excessivo entre as papilas com cotonete. Em alguns casos, o filme lacrimal fica tão alterado que o uso de lubrificantes tópicos pode ser necessário”, completa Cláudia Lima.
A prevenção, claro, continua sendo o melhor remédio. No processo de adaptação das lentes de contato, o oftalmologista deve ser extremamente minucioso nas instruções sobre limpeza, conservação e troca das lentes, e certificar-se que foi entendido.
As duas especialistas também recomendam que as pessoas com histórico de intolerância ao uso das lentes de contato sejam encorajadas a usar lentes descartáveis com troca programada.
Fisiopatologia
Toda resposta alérgica é considerada uma hiper-reação do sistema imunológico aos alérgenos. Essa resposta pode ser inata ou adquirida após múltiplas exposições a um antígeno particular. A conjuntivite papilar gigante é uma reação de hipersensibilidade tipo I e muitos fatores estão envolvidos na sua fisiopatologia. A teoria mais aceita é de que a lente, ao ficar coberta de depósitos, induz um estímulo antigênico, causando a produção de imunoglobinas na lágrima (IgG, IgE e, nos casos mais severos, IgM). Além disso, o sistema do complemento é ativado, com a formação de anafilotoxina C3, que, ao interagir com as IgE e IgG, promove a liberação de aminas vasoativas.
A citologia da conjuntiva de pacientes com conjuntivite papilar gigante exibe uma resposta imunológica contendo linfócitos, plasmócios, mastócitos, eosinófilos e basóficos, reforçando a hipótese da hipersensibilidade tipo I (antígeno – anticorpo).
Além disso, a lente de contato coberta por depósitos causa um trauma na conjuntiva, com a conseqüente liberação de fatores quimiotóxicos dos neutrófilos, que atraem eosinófilos, mastócitos, basófilos, linfócitos e plasmócitos. Essas células, ao interagirem com IgE, IgG e C3a, resultam na liberação de aminas vasoativas, que são responsáveis pelos sintomas da doença.