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São Paulo, 6 de janeiro de 2009.


Impressões Visuais - por Marcelo Carvalho da Cunha e Rosana Nogueira Pires da Cunha
Sumário:
Já se vão quase quarenta anos, e parece que o tempo não passou: conheci o Dr. Moacir Cunha em 1963, e sua presença ainda está em absolutamente intacta em minha memória. Seu filho Guilherme e eu havíamos ingressado na Faculdade de Direito e nos tornamos os amigos fraternos que somos até hoje. Formamos desde logo um pequeno clã, com o Guilherme Coelho, o Dalmo Nogueira e o Sérgio Amaral. Havia também o estudante de engenharia Vinicius Caldevilla. Éramos pouco mais que adolescentes e vivemos juntos experiências formadoras, até que o fim do curso e o ato institucional n°5 nos dispersassem. O apartamento da rua Aureliano Coutinho, onde o Dr. Moacir exercia suave patriarcado foi o nosso ponto de encontro. Eu diria mais: no apartamento, a mesa.

Era excelente a cozinha comandada por Dona Galdina, mas eu evoco, sobretudo, o prazer de estar à mesa com o Dr. Moacir. Vejo ainda a sua bela figura, seus olhos expressivos, os cabelos brancos emoldurando um rosto excepcionalmente jovem, a roupa meticulosamente cuidada. Aí está ele, chegando da clínica para almoçar, o aperitivo de vinho do Porto servido ao pé da biblioteca guarnecida dos clássicos encadernados por ele. Dotado de um "charme" fora do comum, era natural que ele ocupasse o centro das atenções. Contribuía com seus casos médicos, seu acervo de anedotas, as observações sobre os fatos do dia (lembro-me da notícia da morte do Presidente Kennedy), freqüentemente lia pequenos trechos dos livros que o entusiasmavam. Mas ele nos instigava, puxava por nós, valorizava os comentários de cada um, estimulava o confronto de opiniões velando para que daí não resultasse azedume. Fazia humor sobre si, no que revelava autoconfiança e, ao mesmo tempo, o bom gosto de não se tomar excessivamente a sério.

É claro que o Dr. Moacir Cunha foi um grande médico, um pai de família atento às necessidades materiais e espirituais dos seus, um intelectual de vastos conhecimentos e inesgotável curiosidade: em tudo isso ele nos deu lições e nos edificou. Mas além disso, ele que melhorou minha visão ao receitar-me meus primeiros óculos, ensinou-me a ver essa fonte insubstituível de prazer, essa forma privilegiada de conhecer-se a si mesmo e aos outros que é conviver com os amigos e, mais precisamente, conversar com os amigos.

Sr. Aloysio Nunes Ferreira Filho
Deputado Federal
Secretário Geral da Presidência da República



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